Pensar globalmente para operar localmente

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Pensar globalmente para operar localmente

Paulo Roberto Dantas, CEO da Cristal Pigmentos, fala sobre a importância da educação, da sustentabilidade e da inovação.

Por Bruna Cavalcanti

Para Paulo Roberto Dantas Oliveira, CEO da Cristal Pigmentos do Brasil S.A, subsidiária brasileira da Cristal Global, a vida é feita de desafios, governança e estratégia. Em 2003, quando entrou para a empresa, a Cristal Brasil passava por uma série de dificuldades relacionadas à fábrica localizada no município de Camaçari, na Bahia. O governo baiano tentava fechar a instalação, devido a problemas de contaminação, e removê-la a outro local. Para controlar essa situação, a Millennium Inorganic Chemicals Inc (controladora indireta da companhia, na época) entrou em ação para reverter o problema e colocar as coisas em ordem.

Nesse período, diversas pessoas – como gerentes, técnicos e engenheiros – foram contratadas. Entre elas, Dantas, que ocupou o cargo de Business Partner de Recursos Humanos e trabalhou diretamente com Ronaldo Alcantara, hoje CEO da Cristal Mineração na Austrália. “Introduzimos uma política de reconhecimento de danos, mudamos a percepção que tínhamos sobre a nossa própria indústria e criamos uma nova cultura, tanto em termos de sustentabilidade como de educação. Dessa forma, os resultados foram surgindo”, explica.

Além da governança, a estratégia de Dantas foi investir na comunicação e no diálogo, tanto com o governo local como com a comunidade. Para isso, o diretor buscou implementar uma política empresarial formada pela transparência, qualidade e controle de riscos. Resultado: os esforços e a gestão, liderados pela Cristal Brasil, fizeram com que a empresa conseguisse cumprir as condições necessárias para sua licença e também para reposicionar a companhia em termos ambientais. Desde então, a Cristal Brasil tem investido mais de US$ 60 milhões em melhorias operacionais, conseguindo reduzir, entre outras coisas, o consumo de água e as emissões atmosféricas, garantindo uma qualidade equiparada ao modelo internacional, especialmente em relação aos padrões de segurança.

HISTÓRIA E EXPERTISE

Quando foi contratado para trabalhar na Cristal Brasil, Dantas vinha de uma larga experiência neste setor – são mais de 35 anos de know-how, principalmente, na área de gestão e governança – o que facilitou a abordagem que passou a desenvolver junto com a sua equipe. “O que eu vi nesse momento foi uma oportunidade. Temos um bom time, mas esse é um mercado regulador muito complexo. Tivemos que aprender a gestionar os riscos e a legislação desse setor por meio de uma governança moderna e financeira”, afirma.

Como qualquer outra multinacional que opera no exterior, parte das estratégias da Cristal Brasil estão condicionadas ao comando internacional da companhia. No entanto, para Dantas, que hoje ocupa o cargo de diretor executivo e de presidente do conselho de administração da empresa, o grande segredo para uma boa gestão é pensar globalmente para operar localmente. “Queremos ser diferentes. O sucesso da Cristal Brasil está na maneira peculiar que temos para realizar nossos negócios. Isso se deve ao fato de que muitas das dificuldades que enfrentamos estão relacionadas aos limites e às necessidades locais, tanto em termos de manufatura como dos próprios elementos culturais que guiam a empresa. Por isso, é fundamental um gerenciamento próprio ao mercado brasileiro”, pondera.

Dezesseis anos após ser contratado para trabalhar na Cristal, Dantas dirige hoje uma empresa que é a segunda maior produtora de pigmento de dióxido de itânio (TiO2) do mundo. No total, são oito fábricas distribuídas em cinco continentes, além de duas plantas nos Estados Unidos e uma na Inglaterra, China, França, Arábia Saudita, Austrália e Brasil. Apenas em solo brasileiro, a companhia possui três unidades: a fábrica em Camaçari, na Bahia, a Mina do Guaju, em Mataraca, na Paraíba, e o escritório comercial em São Paulo, de onde operam para toda a América Latina.

A mina da Cristal localizada na Paraíba produz ilmenita, um minério de ferro a partir do qual é extraído o dióxido de titânio, produto utilizado para dar cor a tintas, plásticos, roupas e cosméticos. “Apesar de termos uma operação de mineração, nosso principal negócio é a produção de pigmentos. O lado mineral, no nosso caso no Brasil, é uma oportunidade paralela de melhorar os negócios locais, tendo a nossa própria fonte de matéria prima ao invés de importá-la”, explica.

Além do dióxido de titânio, a Cristal Pigmentos do Brasil também fabrica ácido sulfúrico e produz minerais como a zirconita, o rutilo e a cianita. Esses minérios são utilizados na fabricação de cerâmicas e refratários, garrafas plásticas, revestimento de vinil, matérias de embalagens, entre outras coisas.

MODELO DE SUSTENTABILIDADE E MEIO AMBIENTE

Depois de quase ter tido a fábrica fechada, pelo governo em 2003, a Cristal Brasil teve sua evolução na área ambiental reconhecida, em 2009, com o Prêmio Nacional de Conservação e Uso Racional de Energia, na categoria Indústria/Energia Elétrica. Instituída pelo Ministério das Minas e Energias, a premiação é coordenada pela Eletrobras e pela Petrobras e tem como objetivo reconhecer os projetos que visam ao uso racional e eficiente de energia no país. Apresentando o projeto “Eficiência na Produção de Pigmento de Dióxido de Titânio”, a companhia foi a única indústria nacional a ganhar o prêmio.

Além do reconhecimento pelo Ministério de Minas e Energia, a empresa foi premiada, em 2018, com o melhor case de Gerenciamento de Risco e Controles (GRC) – na ACL Impact Award – por seu trabalho e evolução na área ambiental. O prêmio ocorreu na Filadélfia, Estados Unidos, e foi concedido pela ACL, uma empresa americana bastante conceituada na área de softwares de governança.

Outra conquista importante, por parte da Cristal Brasil na área de governança sustentável, foi a renovação da sua licença operacional, por um prazo de 8 anos, pelo INEMA, órgão ambiental do Estado da Bahia. “O prazo é inédito na história da empresa – antes foi de seis anos – e é resultado do trabalho que realizamos por duas décadas, os quais culminaram em uma sólida cultura interna de proteção ambiental”, afirma Dantas. No parecer concedido pelo INEMA são destacadas, entre outras coisas, o esforço da companhia em “desenvolver ações no sentido de resolver passivos ambientais e mitigar os danos inerentes ao processo produtivo”.

O modelo de governança implantado pela Cristal permite que a fábrica na Bahia possa, de forma continuada, mitigar os danos inerentes ao processo produtivo, com redução das emissões atmosférica, dos efluentes líquidos e da geração de resíduos. “O nosso objetivo agora é buscar melhorias na sustentabilidade industrial, utilizando critérios de produção cada vez mais limpos, além de garantir um consumo sustentável dos recursos naturais que utilizamos. Também buscamos realizar ações que garantam uma melhor convivência com as comunidades ao entorno da nossa planta. Essa é uma parte importante da responsabilidade social da empresa.”, garante Dantas.

GESTÃO E EDUCAÇÃO

Além da preocupação com a sustentabilidade e da eficiência em relação ao meio ambiente, outro pilar importante para a Cristal Brasil é o atendimento ao cliente. Por isso mesmo, para Paulo Roberto Dantas Oliveira, o mais importante, para os próximos três anos, é criar capacidades e tecnologias para aumentar a produção, além de driblar as próprias adversidades do complexo mercado brasileiro. “Atualmente, somos responsáveis por 18% da produção. Mas, sabemos que podemos melhorar e que a chave para tudo isso está na logística. O processo do supply chain é fundamental para nós, principalmente, pela locomoção dos nossos produtos entre a fábrica que possuímos na Bahia e a mina na Paraíba”, destaca.

Para Dantas, a educação e o investimento em operações de excelência são outros requisitos que têm sido priorizados na gestão da Cristal Brasil. O foco em uma educação de alto padrão está presente em todos os níveis da empresa, com incentivos que vão desde treinamentos e preparação técnica até ajuda com cursos universitários. “Construir talentos faz esse negócio ser diferente para nós. Além disso, é mais fácil ser uma empresa eficiente quando temos um grupo estratégico”, analisa. O reconhecimento e apoio à educação, por parte da companhia, fizeram com que ela fosse considerada uma das melhores empresas brasileiras para se trabalhar, no setor químico e petroquímico, em 2013. A pesquisa, realizada como parte do Guia da Você S/A, apontou que 96,5% dos funcionários se identificam com a política da empresa, enquanto outros 94,9% dizem que estão satisfeitos e motivados.

GOVERNANÇA

A crise dos últimos anos, que afetou uma grande parte da indústria brasileira, foi encarada pela Cristal Pigmentos do Brasil, e por Dantas, como uma oportunidade de crescimento, tanto em questões de gestão como de governança. Nesse sentido, o objetivo foi aproveitar as denúncias de corrupção, que afetaram a diversas empresas do setor privado, além do próprio governo, para demonstrar ao mercado que a companhia trabalha legalmente e de acordo com a regulação. “Como empresa, no meio desta guerra entre direita e esquerda, estamos bem. Realizamos diversas auditorias externas e estou seguro que temos um dos melhores e mais seguros modelos de governança empresarial. Era o mínimo que poderíamos fazer por nossos clientes”, ressalta.

2019-06-09T17:51:54+00:00

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