De volta à Serra Pelada

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De volta à Serra Pelada

Exposição com 56 fotografias de Sebastião Salgado revive a febre do ouro na década de 80 no sul do Pará.

Por Bruna Cavalcanti

A busca incansável – e insaciável – pelo ouro na região da Serra Pelada, durante os anos 80, volta a ser revista pelas lentes do premiado fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. Intitulada de “Gold – Mina de Ouro Serra Pelada”, a exposição está sendo exibida no Sesc Paulista, em São Paulo.

Considerado um gênio da fotografia, Sebastião Salgado permaneceu 33 dias em um barraco em Serra Pelada, durante o auge pela busca de ouro na região. Durante esse período retratou as sensações e os sentimentos dos garimpeiros presentes naquele lugar.

As imagens de “Gold – Mina de Ouro Serra Pelada só foram possíveis graças à persistência de Salgado. Para poder concretizar esse projeto, ele esperou mais de cinco anos até ser autorizado pelo Exército brasileiro a ir fotografar o garimpo.

Em 56 fotografias, 31 delas inéditas, o artista retrata a febre do ouro no garimpo ao sul do Pará. Em imagens impressionantes, que fazem com que os trabalhadores pareçam verdadeiras formigas humanas, a mostra destaca a ambição e a loucura que levaram mais de 50 mil homens a deixar as suas casas para trabalhar em condições muitas, vezes desumanas.

Todas as imagens da exposição são em preto e branco, marga registrada do fotógrafo. O objetivo foi o de retratar e destacar a própria ação da foto em si, além do impacto e da situação sobre o objeto retratado. Essa tradição também é seguida pelos grandes nomes da fotografia como: Edward Weston, George Brassai, Robert Capa e Henri Cartier-Breson.

VIDA E OBRA

Economista de formação, Sebastião Salgado tinha uma carreira bastante exitosa. Saiu do Brasil nos anos 60, fugindo da ditadura militar, e se mudou a Paris junto com a mulher Lélia Wanick Salgado. Descobriu a paixão pela fotografia no início dos anos 70, quando trabalhava na Organização Internacional do Café, em uma viagem de trabalho à África. Nesse tempo, ainda usava a câmara de sua mulher.

Em 1979, quando trabalhava na agência de fotografia Magnum, foi encarregado de realizar uma série de fotos sobre os primeiros 100 dias do governo do presidente americano Ronald Reagan. Durante este trabalho, ele foi o único fotógrafo que acabou registrando o atentado a tiros sofrido por Reagan, no dia 30 de março de 1981, em Washington.

A venda das fotos do atentado de Ronald Reagan, para jornais do mundo inteiro, permitiu a Salgado financiar uma viagem a África. Em 1986, o fotógrafo publicou o seu primeiro livro: “Outras Américas, sobre os pobres na América Latina”. Nesse mesmo ano, lançou “Sahel: O homem em pânico”, sobre a seca no Norte da África.

A documentação sobre o trabalho em todo o mundo foi parte de uma série realizada entre 1986 e 1992. Intitulada de “Trabalhadores”, as imagens tornaram o trabalho de Salgado reconhecido em todo o mundo.

Durante toda a década de 90, Sebastião Salgado dedicou-se a fotografar imagens sobre a natureza e sobre o fenômeno migratório. Parte dessas fotografias fizeram parte das séries “Êxodos” e “Retratos de Crianças do Êxodo”, que foram aclamados pela crítica especializada e que renderam ao fotógrafo diversos prêmios internacionais.

Em 2015, o documentário “O Sal da Terra”, que retrata a obra de Sebastião Salgado e foi dirigido pelo premiado diretor e também fotógrafo Wim Wenders, além do próprio filho de Salgado, Juliano Salgado, foi indicado ao Oscar 2015 de melhor documentário.

CAUSAS SOCIAIS

Comprometido com as causas sociais que acredita, por longos anos Sebastião Salgado tem contribuído com diversas organizações humanitárias como: o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, (ACNUR), a Organização Mundial da Saúde (OMS), a ONG Médicos sem Fronteiras e a Anistia Internacional.

Junto com a esposa Lélia, Salgado fundou, em 1998, o Instituto Terra. Entidade sem fins lucrativas, a organização nasceu com o objetivo reflorestar a fazenda dos pais do fotógrafo, em Minas Gerais, e transformá-la em reserva natural. Desde então, além de recuperar a floreta, já foram plantados mais de 2,7 milhões de árvores.

De uma estética absolutamente apurada, o trabalho de Sebastião Salgado é marcado pela denúncia, mas principalmente pelo olhar cuida- do e crítico em documentar uma fotografia que retrata algo que vai muito além das fronteiras e do próprio continente americano.

“Gold – Mina de Ouro Serra Pelada” tem curadoria de Lélia Wanick Salgado e conta com a venda de dois livros: o primeiro com versão para o público em geral e outro para colecionadores. Depois de São Paulo, a mostra de Sebastião Salgado será exposta em outros lugares como: Estocolmo, Londres e Fuenlabrada (Espanha).

2019-11-08T17:59:01+00:00

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